Há 20 anos, Ronaldinho era aplaudido no Bernabéu por show em clássico: "Obra prima de um artista"

Atuação histórica pelo Barcelona superou rivalidade, com a torcida do Real Madrid se rendendo ao talento do brasileiro. Jornalistas relembram episódio: "Até no bar o aplaudiram"

| GLOBOESPORTE.COM / JORGE NATAN


R10 deixa Sergio Ramos para trás, em 2005: arrancada e golaço levou craque a ser aplaudido no Bernabéu — Foto: Getty Images
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Dezenove de novembro de 2005. Estádio Santiago Bernabéu, em Madri. Real Madrid e Barcelona se enfrentam em clássico pela 12ª rodada do Campeonato Espanhol 2005/06. O relógio marca 32 minutos do segundo tempo, e o placar indica vitória do Barça por 2 a 0. Ronaldinho Gaúcho, camisa 10 do time catalão, recebe a bola na esquerda, em contra-ataque. Em uma arrancada imparável, parte para cima da marcação, passa com tranquilidade e bate na saída do goleiro. Gol! Golaço! Mas o 3 a 0 para o maior rival não gera silêncio na casa do Real Madrid. Pelo contrário: gera aplausos.

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A cena é inesquecível para quem viveu - quem estava no estádio, em outros locais na capital espanhola ou mesmo assistindo pela televisão. Não é sempre que se vê torcedores resignados diante de um 3 a 0 no principal jogo do país, admirando o talento de um craque, mesmo que vista as cores do maior rival. O episódio, que completa 20 anos nesta quarta-feira, entrou para a história e ajudou a criar a aura de magia que passou a envolver R10 até o fim da carreira.

- Eu estava no estádio, e aquela arrancada do Ronaldinho foi uma coisa tão alucinante, coroou uma atuação tão extraordinária, tão incrível, que a única coisa que o torcedor... Ele se levantou e aplaudiu, como se tivesse vendo uma obra prima, num teatro - lembra o jornalista Fernando Kallás, brasileiro que é correspondente da agência "Reuters" na Espanha.

O lance, apesar de genial, não foi isolado. Pelo contrário: coroou uma atuação na qual Ronaldinho já havia marcado outro golaço, também com uma bela arrancada - além de ter dado enorme trabalho ao longo do jogo à marcação do Real Madrid dos Galácticos, comandado por Vanderlei Luxemburgo. Anos depois, o camisa 10 relatou que não reparou o gesto surpreendente da torcida rival.

- Nem passou na cabeça. (Notei) No outro dia, que aí começaram a comentar, começou a passar na televisão, todo mundo comentando. Hoje em dia, você vê a grandeza do que aconteceu, porque todo mundo fala. Mas na hora assim, a gente nem... Não dá nem tempo. Hora ali da euforia, de gol, comemoração, você nem pensa. Mas é mais gostoso ver depois - disse Ronaldinho ao canal "Desimpedidos", em 2024.

Os aplausos dos rivais não ficaram apenas nas arquibancadas do Santiago Bernabéu. É o que conta o jornalista Santi Giménez, do jornal "As", que trabalha em Barcelona. Na época, ele foi à capital, mas acompanhou o clássico com torcedores fora do estádio, e viu a cena se repetir.

- Eu estava em Madri para cobrir esse jogo, mas em vez de ir ao Bernabéu, fiz um artigo diferente para o jornal que eu trabalhava. Que era ver o jogo em um bar, rodeado de madridistas, para ver como ficava o ambiente e contar algo mais social. E no bar também aplaudiram Ronaldinho, não só no Bernabéu, quando ele fez o gol - lembra.

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Para o jornalista, aquela noite histórica e a reação dos torcedores do Real só foram possíveis graças ao carisma de Ronaldinho, que havia chegado ao Barcelona em 2003 e já tinha brilhado na temporada anterior. Tanto que, dias depois daquele jogo, receberia a Bola de Ouro.

- Era um jogador que era bem aceito, era muito simpático. Não humilhava os rivais, não encarava o público. Sempre jogava com um sorriso no rosto. Era um jogador que despertava admiração de todos, até dos rivais - conta Santi.

Fernando Kallás, por sua vez, aponta que o cavalheirismo é uma característica valorizada pela torcida do Real Madrid. Que o clube gosta de se colocar como uma referência neste aspecto, e acaba demandando isso de seus times e também de seus fãs.

- É um clube que sabe reconhecer, como bom cavalheiro, de forma tradicional, a superioridade do rival. Dentro dessa realidade do Real Madrid e do futebol europeu, onde não existe essa animosidade que a gente tem na América do Sul, aquele dia foi um dia tão mágico, onde o torcedor viu uma coisa tão extraordinária, que a única coisa que sobrou... Foi uma coisa muito espontânea.

Barcelona em alta x Galácticos em baixa

Real Madrid e Barcelona chegaram ao primeiro clássico da temporada 2005/06 em uma disputa ponto a ponto em LaLiga. No começo daquela rodada, o líder era uma surpresa: o Osasuna, que tinha dois pontos a mais que os catalães e três a mais que os madrilenhos. Aquele Barça buscava o bicampeonato na liga, em um trabalho de Frank Rijkaard que se mostrava cada vez mais maduro. E o Real Madrid tentava se provar com Vanderlei Luxemburgo, que havia chegado no meio da temporada anterior.

Era um Real Madrid com o famoso elenco dos Galácticos em mais um momento de irregularidade. E um Barça em alta, com R10 já consolidado como craque e rodeado de outros jogadores que ainda viriam a se tornar lendas.

Escalações iniciais:

Real Madrid: Casillas, Salgado, Sergio Ramos, Helguera, e Roberto Carlos; Pablo García, Zidane e Beckham; Raúl, Robinho e Ronaldo. | Técnico: Vanderlei Luxemburgo.Barcelona: Valdés, Oleguer, Puyol, Rafa Márquez e Van Bronckhorst; Edmílson, Xavi e Deco; Messi, Ronaldinho Gaúcho e Eto'o. | Técnico: Frank Rijkaard.

Referência do time, Ronaldinho foi muito acionado desde o começo do jogo. Apesar de dois erros ao tentar dominar os primeiros passes que recebeu, não se escondeu e buscou as jogadas individuais. O Real tentou pará-lo com uma marcação dupla ou, às vezes, tripla. R10 cobrou uma falta na barreira ainda nos primeiros minutos. Depois, tentou uma nova arrancada pela esquerda, mas não conseguiu espaço.

O primeiro tempo teve chances no ataque para os dois times, mas uma delas fez a diferença para o Barça: aos 14, Messi - que fazia seu primeiro El Clásico da carreira - arrancou e foi na direção de Eto'o. O camaronês pegou a bola, girou e abriu o placar. Eto'o comemorou diante da torcida do Real e foi xingado.

Enquanto isso, R10 seguia muito bem marcado na ponta esquerda, sem conseguir o espaço desejado. Aos 37, teve a primeira chance clara, mas demorou a chutar e foi travado por Casillas na pequena área. Mas, mesmo sem decidir, tentava mostrar sua magia: deu um belo passe de calcanhar para Van Bronckhorst e chegou a deixar dois marcadores no chão em uma jogada individual, parando em um terceiro defensor. Porém, no segundo tempo viria a coroação.

R10 começou a etapa final distribuindo bons passes, que não foram bem aproveitados pelos companheiros. E logo aos 13 fez a diferença: em um contra-ataque, Ronaldinho recebeu com espaço na esquerda. Partiu para sua arrancada quase imparável. Ele deixou no chão Sergio Ramos, que arriscou um carrinho para tentar desarmá-lo. Chegou na entrada da área e, com facilidade, limpou a marcação de Helguera com uma gingada. Bateu no cantinho de um ainda jovem Iker Casillas. Ali, a torcida do Real não esboçou reação, em misto de incômodo e choque com o lance.

O Real de Luxemburgo precisou buscar o ataque e chegou a perder oportunidades claras. Ronaldo, o Fenômeno, até balançou as redes aos 23, diminuindo a diferença - mas o lance foi anulado por impedimento do brasileiro. Os contragolpes continuaram a aparecer para o Barça, apesar de um momento melhor do rival. E R10 deu fim à esperança de reação aos 32 minutos, no lance que fez o Santiago Bernabéu se render de vez a seu talento.

Ronaldinho recebeu na esquerda e partiu para cima de novo de Sergio Ramos, que dessa vez não tentou o bote, mas logo ficou na saudade. O craque foi em direção à pequena área, atraiu Casillas para se adiantar e bateu no cantinho. A reação da torcida do Real Madrid todos já conhecem.

- Foi o meu primeiro jogo na Espanha, o primeiro no Santiago Bernabéu, e eu estava numa cadeira muito próxima ao campo. Quando ele partiu na arrancada, veio passando na minha frente, parecia uma coisa elétrica. Parecia que tinha dado um curto-circuito no estádio inteiro. Sabe quando o The Flash começa a correr, e os quadrinhos mostram ele rodeado de um raio? Essa era a sensação que a gente estava tendo ali - comenta Fernando Kallás.

Aquela noite sempre é lembrada como uma das maiores atuações da carreira de Ronaldinho Gaúcho, muito também pela reação incomum dos torcedores com uma equipe visitante. É o que indica Alfredo Relaño, jornalista que trabalhava no "As", mas em Madri.

- Lembro daquele jogo como uma exibição fenomenal de um jogador de futebol muito artístico e um semblante extremamente simpático. Isso fez com que ele rompesse a barreira de uma rivalidade de um século e fosse aplaudido no Bernabéu. O feito de provocar aquele aplauso na casa do rival contribuiu, claro, para criar em torno dele um brilho especial - diz.

Naquela temporada, o Barcelona viria a conquistar a Champions League depois de 14 anos de jejum e também faturaria o bicampeonato espanhol. Ronaldinho contribuiria com 26 gols marcados e 12 assistências, além de muitos lances mágicos, que fazem, até hoje, muitos lembrarem de um jogador quase inalcançável desde então.

- Essa foi uma das maiores temporadas (de um jogador) na história do futebol mundial. Acho que a gente pode dizer isso. Uma coisa realmente extraordinária. A olho nu, na minha frente, acho que não vi um jogador fazer uma temporada como aquela do Ronaldinho - analisa Kallás, que viveu naquela noite seu primeiro de muitos jogos na Espanha e viu depois craques como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar.



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