Esportes
Transferências de seleções: atletas trocam nacionalidade mirando a Copa do Mundo; entenda
Expansão do torneio, de 32 para 48 times, intensifica movimento de naturalização de jogadores, de olho em sonhada convocação para o Mundial de 2026
| GLOBOESPORTE.COM / PEDRO GUEVARA*
Uma janela de transferências diferente tem agitado o futebol mundial nos últimos meses. Ela não envolve dinheiro nem clubes, mas sim nacionalidades e seleções. A Fifa lançou em fevereiro uma plataforma que registra a "troca de associação" dos jogadores ao redor do planeta. Às vésperas da Copa do Mundo, o portal tem ficado cada vez mais movimentado.
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Quase uma centena de trocas de associações foram registradas na plataforma da Fifa desde o início do mês de março. Algumas delas foram de atletas que passaram a integrar equipes que disputaram a repescagem, lutando pelas últimas vagas na Copa.
Foi o caso de Joël Piroe, atacante de 26 anos nascido na Holanda, filho de mãe holandesa e pai indo-surinamese. Em 17 de março, ele teve seu registro na seleção do Suriname publicado, e atuou na derrota da equipe para a Bolívia, na repescagem mundial.
Há também casos de "retorno" ao país natal. A Áustria, que enfrentará a Argentina no Grupo J da Copa, contou recentemente com dois novos "reforços" para a equipe: Paul Wanner, meia revelado pelo Bayern de Munique e que atua no PSV, e Carney Chukwuemeka, jogador do Borussia Dortmund. Ambos nasceram em território austríaco, mas representavam outras seleções até então.
Wanner atuou em mais de 20 partidas pela Alemanha nas categorias de base, assim como Chukwuemeka nos times juvenis da Inglaterra. Sem chances nas seleções principais, eles se "transferiram" para a Áustria e devem disputar a Copa. Ambos estrearam na Data Fifa de março, atuando nas duas partidas dos austríacos. O atleta do Borussia inclusive marcou um dos gols na goleada por 5 a 1 sobre Gana.
Luis Felipe Herdy é pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio (GEPOM) e Doutorando em Relações Internacionais (IRI/PUC-Rio). Ele destaca que, por mais que haja um movimento de jogadores que tentem uma convocação para a Copa do Mundo se filiando às seleções onde a competitividade é menor, também existe uma recente ressignificação dos laços familiares e de identidade nacional no futebol.
— Parte desses processos são estabelecidos a partir de um entendimento de que há maior probabilidade de disputar uma competição relevante, por uma seleção menor. Mas existe também o fato de alguns jogadores reatarem laços com essa hereditariedade. Há, nos últimos anos, um processo de fortalecimento de um discurso que coloca novas facetas. Por muito tempo criou-se uma dimensão de pensar num sistema internacional que colocou para alguns países uma posição de inferioridade, mas recentemente temos tido um fortalecimento de retórica nacional, de identificação e da necessidade desses países excluídos de se colocarem à disposição — afirma.
É nessa ideia que algumas seleções do continente africano têm apostado para reforçar suas equipes nos últimos anos. O Marrocos, semifinalista da Copa de 2022 e adversário do Brasil no Grupo C em 2026, é o principal exemplo. A diáspora marroquina levou diversos jogadores com raízes no país a ligas europeias, principalmente da Espanha e da França. A federação nacional, então, passou a buscar vários atletas e apresentar um projeto esportivo a eles visando uma "re-naturalização". Tem funcionado.
Em março, a equipe contou com vários reforços que passaram a integrar a lista de possíveis convocados para a Copa do Mundo de 2026 e também de 2030, quando o Marrocos será uma das sedes.
Segundo Luis Fernando Filho, comentarista que integra o Ponta de Lança (podcast que debate esporte, cultura e política no continente africano), por mais que a identificação nacional e os laços familiares pesem na hora da escolha, é importante destacar os projetos apresentados pelas federações do continente.
— Não existe nenhum tipo de movimento mais concreto se você não tem um projeto esportivo. Não tem amor que resista a uma seleção ou federação que não dê condições para esses jogadores performarem. Então é muito importante falar de seleções como Senegal e Marrocos, que são seleções que fazem esse processo de captação. Tem pessoas muito competentes nessas duas federações que conseguem olhar com uma lupa melhor onde estão esses talentos. Marrocos foi além do óbvio, não ficou só na França, foi olhar suas grandes comunidades na Bélgica, por exemplo. Senegal vem fazendo esse mesmo movimento também.
Outros dois casos recentes de destaque são os de Maurício e Rani Khedira. O brasileiro, que atua no Palmeiras, se naturalizou paraguaio visando a próxima Copa do Mundo.
Já Rani é o irmão mais novo de Sami Khedira, meia campeão mundial com a Alemanha em 2014. No dia 4 de março, sua filiação à federação tunisiana foi publicada no portal da Fifa. Ele foi convocado e atuou no empate sem gols com o Canadá, em amistoso.
A plataforma com as trocas de nacionalidade no futebol mundial é atualizada constantemente, e inclui também os dados sobre o futebol feminino. Ela pode ser acessada clicando aqui.
* Estagiário sob a supervisão de Rodrigo Lois
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