Esportes
No fundo do poço: por que elenco do lanterna da 4ª divisão de SP abandonou o clube
Ao ge, jogadores contam os bastidores do Araçatuba. Além de não receberem salários, atletas foram a jogos sem jantar e apenas com pão e presunto na barriga, de horas antes
| GLOBOESPORTE.COM / ARCíLIO NETO
Uma vitória, dois empates e 11 derrotas: os números da campanha ruim do rebaixado Araçatuba na Série A4 do Campeonato Paulista são apenas a ponta do iceberg de um clube que está no fundo do poço.
Todos os jogadores abandonaram o time, em meio a promessas não cumpridas, falta de salários e situações que não são vividas nem no futebol amador. Sem elenco, o Canário informou nessa quarta-feira à FPF que, "por insuficiência de atletas", não poderá disputar a partida da última rodada. Com isso, anunciou o W.O três dias antes de enfrentar o Jabaquara.
O ge ouviu ex-atletas da equipe, que descreveram algumas das situações enfrentadas durante esta temporada. Muitos jogadores sequer foram registrados na carteira e abandonaram o clube com meses de salários atrasados.
– Nunca presenciei algo nesse nível em algum outro clube. Foi complicado demais. Fui imaginando uma situação e, chegando ali, era totalmente diferente. Clube sem organização nenhuma, em tudo. Sem horário, sem logística, sem material, estrutura. Era tudo uma loucura: viagem, jogos, tudo desorganizado. Não tinha registro na carteira e nem salário – denunciou um dos atletas, que preferiu não se identificar.
Os jogadores receberam salários de alguns dias de janeiro, apenas após ameaçarem não entrar em campo em um jogo contra o Barretos, em março.
– Só recebi os dias trabalhados de janeiro. Nada de fevereiro e março, e os contratos eram até maio. Alguns não receberam todos os dias como deveriam e sempre tinha uma desculpa diferente.
A ausência de salários era usada pelo presidente do Araçatuba, Rodrigo Francisco da Silva, para justificar viagens na madrugada e no dia do jogo, para economizar gastos com hotel. Além disso, os jogadores denunciam ter ido para partidas apenas com pão e presunto na barriga, sem jantar.
– Viajamos para enfrentar a Inter de Bebedouro no dia, para cortar gastos e economizar. Saímos 13h de Araçatuba, paramos para lanchar um pão com presunto em Mirassol e fomos para o jogo direto às 20h, sem janta.
– O jogo em Taquaritinga foi a mesma conversa: era para viajar no dia para economizar e pra pagarem os salários atrasados. Decidiram viajar às 22h de última hora, chegamos lá de madrugada, e no outro dia, antes do jogo, almoçamos marmita porque não tinham organizado nada – relatou o atleta.
Outro jogador descreve atrasos para chegar a um jogo e o caos gerado por membros da diretoria do Araçatuba.
– Contra o Ecus, chegamos no estádio às 14h30 para jogar às 15h, sem tempo de aquecer, nem nada. Tudo isso, porque ficamos andando perdidos para achar o restaurante que ninguém sabia onde era. Depois, na hora de sair, um dos membros da diretoria perdeu a chave do quarto com as credenciais dentro e não tinha como fazer o checkout do hotel. Chegamos em cima da hora do jogo. Este foi o último jogo que muitos fizeram, porque já não tinha condições de salvar mais nada.
– Sempre era culpa de alguém, nas desculpas deles: 'A Federação segurou cota, torcida que não ia, empréstimo no banco, que ia adiantar dinheiro da SAF'. Mas nada disso era o mais importante se o básico não era feito. Treino marcado para 9h chegavam com os materiais 10h30. Às vezes, esqueciam colete, bola. Tinha que usar uniforme antigo, porque não tinham controle de nada e não sabiam quantos tinham – finalizou o atleta.
Veja também + Araçatuba confirma W.O três dias antes de jogo + Araçatuba é goleado e rebaixado à Bezinha + Araçatuba joga com lateral no gol e presidente de técnico
O Araçatuba vive intensa crise política há anos, sob a presidência de Rodrigo Silva. Em julho de 2025, o ge ouviu jogadores que denunciaram a falta de refeições e as condições desumanas. Atletas tiveram que recorrer até a miojo. Em outubro do mesmo ano, denunciaram calote e disseram que "estavam trabalhando de graça".
Apesar da pressão para deixar o cargo, Rodrigo nunca abriu mão do poder. O dirigente chegou a sofrer impeachment, mas conseguiu liminar na Justiça para voltar à presidência.
Em 2026, a crise foi aumentando rodada após rodada da Série A4, em meio a debandada do elenco. Nas duas últimas rodadas, inclusive, o Araçatuba chegou a ficar sem goleiro para jogar e precisou improvisar um jogador de linha e um atleta do sub-20 na posição. Em ambos os jogos, o time acabou goleado.
Outra situação inusitada foi a ausência de técnico no duelo contra o Vocem, que levou o presidente do clube, Rodrigo Francisco da Silva, a ser relacionado como auxiliar e comandar a equipe. Ele, no entanto, foi "descoberto" pela equipe de arbitragem e precisou deixar a função.
+ Tabela e classificação da Série A4
Com apenas cinco pontos em 14 jogos, o Araçatuba teve o rebaixamento confirmado no último fim de semana na derrota por 6 a 0 para o Penapolense.
A AEA é um time com uma torcida apaixonada, que registrou média de quase 4 mil torcedores por jogo em 2024. A equipe terminou a Bezinha na terceira posição e não conseguiu o acesso no campo. Meses depois, porém, o RB Bragantino II deixou de disputar o Campeonato Paulista, e o Canário subiu para a edição de 2025.
O Araçatuba não deve mais entrar em campo na temporada de 2026. Com o W.O confirmado para a última rodada, a AEA não deve disputar a Copa Paulista.
O ge pediu um posicionamento para o presidente Rodrigo Francisco da Silva, mas ele não respondeu.
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