Brasileiro alvo da Premier League foi recusado por Grêmio e Inter e em 2020 jogava 5ª divisão sueca

Aos 27, Léo Scienza é destaque da segunda divisão inglesa e, depois de eliminar Arsenal, terá duelo com Manchester City na semi da FA Cup. Ao ge, meia do Southampton revela história de resiliência

| GLOBOESPORTE.COM / CAíQUE ANDRADE


Léo Scienza brilha no Southampton e vira alvo de clubes da Premier League — Foto: Getty Images
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Destaque absoluto do Southampton, quarto colocado da Championship, a segunda divisão da Inglaterra, o brasileiro Léo Scienza ostenta aos 27 anos uma história de grande superação e resiliência. Nunca teve problemas com álcool ou drogas, mas sua ascensão tardia surpreende a todos, dada a qualidade que tem demonstrado, com sete gols e 10 assistências na campanha em busca do acesso à Premier League.

Depois de eliminar o Arsenal nas quartas da Copa da Inglaterra e antes de enfrentar o Manchester City na semifinal, neste sábado, ele revelou ao ge detalhes de como em cinco anos foi da quinta divisão sueca, sem receber salário, à mira de clubes da Premier. Nascido em Venâncio Aires, no interior do Rio Grande do Sul, rodou por clubes pequenos da região, foi recusado por Grêmio e Inter e, em um momento de desilusão, resolveu embarcar numa oportunidade no futebol europeu em 2019.

— Empresários que moravam na Suécia abriram oportunidades para fazermos testes lá, a ideia era times da primeira ou segunda divisão. Mas fizemos testes em clubes da quinta divisão (...) A gente não tinha salário. Treinávamos só duas vezes na semana e nos outros dias íamos correr na rua para manter a forma. Foi uma fase importante não só como jogador, mas como homem. Hoje valorizo muito mais as pequenas coisas.

Léo Scienza conta que resolveu se mudar para a Suécia para tentar a vida depois de lidar com depressão e a morte do pai. Após cerca de um ano e meio, conheceu dois empresários que trabalhavam na Alemanha e conseguiram um teste no time Sub-23 do Schalke 04. Representantes do clube alemão não entendiam como aquele talento jogava na quinta divisão sueca. É difícil de compreender, mas Léo explica ao ge.

— Quando eu falo com meus amigos e meus treinadores de quando eu era menor, eles falam que eu sempre fui diferente, sempre me destaquei muito. Só que eu jogava muito futsal, e infelizmente, parece que o futsal não é valorizado como deveria. Eu amo mais o futsal do que o futebol de campo. Se a parte financeira e a vida no futsal fossem tão boas quanto no futebol de campo, eu teria feito a minha carreira como jogador de futsal. Mas eu comecei a jogar no campo muito tarde.

Na Alemanha, a chegada ao primeiro nível

Entre 2020 e 2022, Scienza jogou no time Sub-23 do Schalke 04, na quarta divisão alemã. Depois, atuou na segunda divisão, pelo Magdeburg, e em 2023/24 brilhou na terceira divisão, com a camisa do SSV Ulm, onde foi campeão da terceirona e eleito o melhor jogador do torneio. Até que, em 2024, enfim chegou ao primeiro nível do futebol europeu, para defender o Heidenheim, e disputar a Bundesliga e a Uefa Conference League.

— A minha chegada à Bundesliga também foi de uma maneira diferente do normal. Porque os jogadores da Bundesliga ficam rodando entre os clubes na Bundesliga, ou de vez em quando tu sobe como jogador da segunda, para a primeira divisão... No meu caso, eles me pegaram como jogador da terceira divisão, então eu dei dois passos para cima. Foi maravilhoso, não só pela Bundesliga, mas também pela Conference. De um jeito engraçado, o nosso primeiro jogo pelo playoff da Conference foi na Suécia, contra um time sueco, e eu fiz o gol da vitória.

No Heidenheim, Léo Scienza fez boa temporada, apesar da campanha fraca da equipe, que tinha um dos menores orçamentos da Bundesliga e brigou contra o rebaixamento. Não foi rebaixada, inclusive, graças ao brasileiro, que brilhou no duelo decisivo contra o Elversberg. Ele deu uma assistência e marcou o gol da vitória aos 50 do segundo tempo, garantindo a permanência na primeira divisão.

+ Técnico mais longevo da Europa levou Heidenheim da 5ª divisão à Conference

O projeto Premier League

Acostumado a subir degraus gradativamente, Léo Scienza partiu em 2025 para um novo desafio, desta vez na Inglaterra. Rebaixado da Premier League na temporada passada, o Southampton desembolsou 9 milhões de euros (R$ 52 milhões) no brasileiro. O futebol inglês tem um estilo muito físico, que não privilegia Léo, que tem 1,75m, 63kg e características de muita técnica, capacidade de drible e controle de bola. Apesar disso, ele afirma que a trajetória difícil o fez desenvolver adaptabilidade.

— Por eu ter começado tão tarde e ter tido as experiências que eu tive na várzea no Brasil, na várzea na Suécia e em todas as ligas da Alemanha, eu acabei me tornando uma pessoa que se adapta fácil. Falo cinco línguas diferentes. Nunca fiz aula, é só do próprio interesse, de querer aprender. Independentemente do país que vou, consigo me comunicar, isso ajuda muito.

O início não foi fácil. Léo começou no banco de reservas, e o Southampton teve apenas duas vitórias nas primeiras 14 rodadas da Championship. No decorrer da competição, o brasileiro entrou no time e não saiu mais. Hoje a equipe tem 22 jogos sem perder na temporada, incluindo o quarto lugar na segunda divisão inglesa e a campanha surpreendente na FA Cup, a Copa da Inglaterra, eliminando o Fulham e o Arsenal, ambos da Premier League, nas oitavas e nas quartas, respectivamente. Agora, a semifinal é contra o Manchester City. O ge acompanha em tempo real neste sábado, às 13h15 (de Brasília).

— O Arsenal é um dos melhores times do mundo atualmente, semifinalista da Champions. E a gente jogou de igual para igual e mereceu ganhar. Não é que tivemos sorte. Jogamos melhor e ganhamos. É muita gratidão por estar vivendo tudo isso e sempre querendo melhorar. E agora o City no sábado. Uma loucura. Até o ano passado só jogava no PlayStation com estes jogadores... É muito difícil, mas conseguimos surpreender até aqui e vamos tentar fazer de novo.

Além da reta final da Copa da Inglaterra, Léo Scienza tem como foco disputar a Premier League na próxima temporada. Faltando duas rodadas, o Southampton é o 4º e tem três pontos a menos que o segundo colocado. Os dois primeiros garantem vaga na primeira divisão, enquanto do 3º ao 6º disputam playoffs valendo duas vagas. Scienza foi indicado para o time do ano na Championship.

— Esse foi o meu maior objetivo quando assinei aqui. Tive oportunidades nas primeiras divisões de Espanha, Itália, França... Escolhi vir para cá pelo projeto. De voltar direto à Premier League, que é a melhor liga do mundo. Não tem, a nível de clube, uma coisa mais alta que jogar a Premier League. Espero muito que a gente consiga fazer isso com o Southampton, é o nosso objetivo. Mas se não acontecer, a gente tem que sentar e pensar depois da temporada quais são as opções.

Caso o time não consiga o acesso, o brasileiro tem ainda outras possibilidades de disputar a principal liga nacional do mundo. Clubes como Tottenham, Aston Villa, Fulham, Everton e Leeds United já demonstraram interesse no meia-atacante.



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