"Acaba o jogo, já pagamos": por que a várzea atrai cada vez mais jogadores do futebol profissional

Com calendário cheio, pagamento imediato e cachês competitivos, times amadores ganham espaço entre atletas de clubes menores e competem de igual para igual com o profissional

| GLOBOESPORTE.COM / EMILIO BOTTA


Elenco do São Caetano na Série A4 do Campeonato Paulista 2026 — Foto: Giulio Tuvacek
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Cotações

A distância entre o futebol amador e o profissional está cada vez menor. Competições bem organizadas, calendário cheio e salários atrativos têm elevado o patamar da várzea e atraído cada vez mais jogadores profissionais, principalmente os que atuam por clubes de menor expressão.

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A principal explicação está na questão financeira. Alguns jogadores amadores conseguem rendimentos próximos aos de colegas que atuam profissionalmente, caso do centroavante Max, considerado um dos astros da várzea e que, neste ano, atua por 24 clubes diferentes.

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Em outros casos, mesmo vinculados ao futebol profissional, jogadores recorrem ao amador para complementar a renda. Os salários mais modestos oferecidos por clubes menores acabam sendo menos atrativos do que os cachês pagos por times da várzea por apenas uma partida.

– A várzea é a maior concorrente dos clubes pequenos. Eu tive o Caiuby aqui, que foi o melhor jogador do campeonato. É um atleta que facilmente jogaria uma Série A ou B do Campeonato Brasileiro. Eu tinha um acordo e precisava liberá-lo de vez em quando para jogar na várzea.

– Hoje, financeiramente, pode ser ruim para o atleta, porque um clube de Quarta Divisão ou da Copa Paulista não consegue pagar mais do que R$ 5 mil, R$ 6 mil. Por isso a várzea compete de igual para igual – explica Jorge Machado, dono do São Caetano.

O clube do ABC paulista atualmente disputa a Série A4 do Campeonato Paulista e vive uma realidade bem diferente da que teve quando foi duas vezes vice-campeão brasileiro (2000 e 2001), da Libertadores (2002) e campeão paulista (2004). São mais de R$ 70 milhões em dívidas e a busca por novas receitas para seguir vivo no futebol profissional.

Dinheiro e atmosfera

Citado acima como exemplo, Caiuby, de 38 anos, retornou ao Brasil há dois anos, depois de 14 temporadas na Europa. Atualmente no Grêmio Prudente e passando por times de menor expressão desde a volta ao país, o atacante tem na várzea uma segunda fonte de renda.

– Acredito que a várzea está tão atraente para os jogadores muito pelo que vem acontecendo em relação à questão financeira e estrutural. Hoje em dia, os clubes de várzea estão muito bem estruturados e têm potencial financeiro. Isso se torna muito atrativo tanto para o jogador profissional quanto para o amador.

– Muitos atletas estão até deixando o profissional para jogar na várzea, porque recebem muito mais do que receberiam em um time de quarta ou até terceira divisão. O nível de investimento está batendo de frente – conta Caiuby, que detalha como era o seu acordo para conciliar os jogos pelo São Caetano e no futebol amador.

– Quando ele me contratou, fui direto: "Machado, infelizmente tenho um acordo com o pessoal da várzea". Esse foi, inclusive, um dos motivos para não querer sair de São Paulo. Mas deixei muito claro que só jogaria na várzea sob certas condições. Eu só ia jogar se o São Caetano vencesse. Se a gente perdesse no profissional, não tinha o aval para atuar na várzea, não seria correto. E deu muito certo.

Caiuby admite que o público pequeno em campeonatos de menor expressão, como a Série A4 e a Copa Paulista, contrasta com a atmosfera de "final" do futebol amador, que costuma ter campos lotados.

– Muitas vezes, o cara vai disputar um campeonato de quarta divisão e o estádio está praticamente vazio. Isso é um fator que vai desanimando o jogador. Quando você vai para a várzea, está sempre lotado, a torcida fazendo aquela loucura, as pessoas deixando a família e o emprego de lado só para viver aquele momento de paixão. Isso mexe totalmente com o atleta profissional. É difícil você ter que "tirar do sangue" a motivação em um jogo com estádio vazio.

Além do clima que remete aos grandes jogos e aos momentos de uma carreira de sucesso, o lado financeiro tem sido decisivo na escolha de muitos jogadores de deixar o futebol profissional para atuar na várzea.

– Hoje em dia, o cara que se dedica de verdade à várzea consegue receber muito bem e fazer bons contratos. Os clubes dão luvas para você assinar com o time, e no dia do jogo você ainda recebe o "bicho" normal. Por isso que eu digo que está muito atrativo e que muitos estão abandonando o profissional.

– Se um jogador mediano, que já tem um nome legal na várzea, jogar aos sábados e domingos durante o mês, e às vezes no meio de semana, ele consegue tirar facilmente uns R$ 10 mil livres, ou até passar disso. E se for um cara de muito renome na várzea, consequentemente vai ganhar muito mais. É um mercado que cresceu absurdamente, e o nível técnico aumentou muito também – conta Caiuby.

Quanto a várzea paga aos jogadores?

O ge procurou clubes do futebol amador para entender o mercado e como essas equipes conseguem oferecer valores altos para atrair cada vez mais jogadores profissionais. Muitas contam com patrocínios de comércios locais, enquanto outras são bancadas por um "mecenas".

O Estrela do Suisso, time de São Bernardo do Campo e um dos mais tradicionais da várzea paulista, tem o presidente Clayton Marcelo como financiador do projeto. Na camisa do clube, há apenas a inscrição "Deus é Fiel", sem patrocinadores.

– Atualmente, o financeiro do Estrela é 100% minha responsabilidade. Não trago qualquer pessoa para perto porque tenho princípios que almejo, especialmente sobre a origem do dinheiro. Prego muito isso. Não adianta nada ter um supertime, pagando valores altos aos jogadores, se não estivermos fazendo a vontade de Deus. Por isso, hoje a camisa do Estrela é lisa, o patrocínio é apenas o "Deus é Fiel", e as coisas estão caminhando bem assim – explica Clayton.

Recentemente, jogadores de Marília, Linense e São José, clubes que disputavam a Copa Paulista, atuaram na final da várzea em Ribeirão Preto, mesmo sob contrato profissional. O episódio causou polêmica, já que os atletas acabaram dando preferência aos times amadores.

O Estrela do Suisso, por exemplo, conseguiu contratar o meia Gabriel Mendes, considerado o "01 da várzea" e que vinha atuando profissionalmente pelo Avaí, na Série B do Brasileiro. O jogador optou por deixar o futebol profissional e se dedicar ao amador.

– Quando conversei com ele, estava no Avaí. Naquele momento não dava para trazê-lo, porque, pelas regras do nosso campeonato, se o jogador está no BID (Boletim Informativo Diário) do profissional, ele não pode atuar. Mas ficamos sabendo que ele retornaria a São Paulo por não querer mais jogar no profissional, e conseguimos contratá-lo. É um jogador de ponta – disse Clayton.

O pagamento instantâneo, o famoso "jogou, recebeu", faz sucesso e acabou se tornando uma marca do futebol amador, que raramente deixa de cumprir os acordos feitos com os atletas.

– Vemos clubes profissionais, como o São Caetano e outros, frequentemente na mídia por atraso de pagamento. O jogador treina a semana inteira, abdica da vida pessoal para jogar e, no fim do mês, o salário atrasa. Na várzea, o processo é imediato. A pessoa nos procura, quer jogar, fechamos um valor combinado e, assim que acaba o jogo, já pagamos. É muito rápido.

– Se o atleta faz três ou quatro jogos no fim de semana, ganhando 500 reais em cada, já tira 2 mil reais ali mesmo. Tem que ser instantâneo, porque se ele não receber em um fim de semana, no próximo ele não vem. Por isso, times de divisões inferiores do profissional acabam deixando a desejar tanto na estrutura quanto no pagamento em comparação à várzea – revela o presidente do Estrela do Suisso.

Campeonatos atrativos

A Super Copa Pioneer é considerada um dos principais e mais atrativos campeonatos do futebol amador atualmente. O torneio é famoso por reunir diversos medalhões e por envolver altas cifras em premiações. Cerca de 400 mil pessoas chegam a acompanhar a competição ao longo de três meses.

Em 2023, o ge mostrou como a várzea se tornou fonte de renda para ex-jogadores que fizeram sucesso no futebol profissional. Até campeões da Libertadores atualmente desfilam pelos campos amadores espalhados por São Paulo e pelo Brasil.



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