Esportes
De maior time da China ao desaparecimento: o que aconteceu com o Guangzhou?
Heptacampeão chinês consecutivo, clube viveu auge nos anos 2010, contratou Felipão, Paulinho e Conca, mas fechou as portas após a falência de uma empresa bilionária; Scolari relembra: "Queda muito grande"
| GLOBOESPORTE.COM / ISABELA REIS
Quem quer entender sobre a evolução do futebol asiático precisa estudar o Guangzhou FC. Um clube chinês sem muita expressão que se tornou a maior potência do país e do continente em poucos anos, assombrando o mundo com grandes contratações. Tudo isso após ser comprado por uma empresa bilionária do ramo imobiliário - a Evergrande.
Entretanto, tão meteórica quanto a subida, foi a queda do time. A patrocinadora faliu, o Guangzhou foi se desfazendo aos poucos e fechou de vez as portas no início do ano passado. Mas como uma potência tão grande, que contratou Felipão, Paulinho, Elkeson, Conca e outras estrelas, simplesmente desaparece?
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O início
O Guangzhou FC fundado em 1954 na cidade chinesa homônima, uma das maiores do país e do mundo, com cerca de 15 milhões de habitantes. Com apelido de "Tigres do Sul da China", em referência ao mascote do escudo, a equipe surgiu como uma representação do governo local - estratégia muito comum no futebol chinês.
O clube só se tornou profissional 39 anos depois de sua fundação. Durante a primeira parte de sua história, viveu alternando promoções e rebaixamentos entre a segunda e a primeira divisão, além de ser o coadjuvante na cidade que era um grande polo financeiro e comercial da China.
O que parecia ruim se agravou em fevereiro de 2010. O Guangzhou foi rebaixado para a segunda divisão como punição por um esquema de manipulação de resultados. A ação fez parte de uma extensa investigação do Ministério de Segurança Pública da China, que identificou subornos feitos por funcionários do clube para vencer partidas em 2006.
A operação também condenou outros times, prendeu ex-vice-presidentes da Associação Chinesa de Futebol, além de um árbitro Fifa e jogadores da seleção da China. O Guangzhou passou por uma reformulação administrativa, já que dirigentes foram presos, e foi colocado à venda. Nesse momento de tensão, surgiu a maior responsável pelo seu futuro sucesso: a Evergrande.
A virada de chave
Ainda no início de 2010, o Guangzhou foi comprado por 100 milhões de yuans (R$ 25 milhões na cotação da época) e passou a se chamar Guangzhou Evergrande. A nova dona do clube em crise era uma gigante incorporadora imobiliária que tinha origem justamente na cidade do time.
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A mente por trás da compra foi Xu Jiayin, fundador da empresa e que se tornou o principal gestor dos investimentos no clube. Nas mãos dele, a Evergrande acumulou em dez anos 150 bilhões de dólares em ativos patrimoniais, se aproveitando do grande êxodo rural no início dos anos 2000 e da alta densidade populacional do país.
Jiayin chegou a liderar lista de homens mais ricos da China, em 2017, enquanto a Evergrande se tornou uma das maiores empresas do ramo imobiliário. Setor esse que representava um terço da produção econômica chinesa até meados de 2022, segundo o jornal inglês "Financial Times".
— (A gestão do Guangzhou) Tinha um aporte financeiro muito bom. Eles cumpriam e desenvolviam o time. Quando mostramos algumas carências em alguns aspectos, como na área de saúde e de trabalhos físicos, eles foram atrás e nos deram um retorno muito rápido. Eles estavam preocupados em desenvolver o futebol chinês. Para chegar em competições como o Mundial, por exemplo, e ter igualdade de disputa com times tradicionais. A ideia era de que fazendo isso, eles progrediriam — explicou Felipão.
O potencial financeiro do Guangzhou se tornou a principal arma do time. Segundo Felipão contou ao ge, as propostas que vinham eram "excelentes" em questões monetárias. O poder nos aportes levou o time a ficar conhecido como "Chelsea da Ásia".
Anos dourados
A reformulação começou com um combo de contratações, ainda na segunda divisão. Na janela do meio de 2010, o Guangzhou Evergrande contratou os maiores nomes do futebol chinês daquele período, como Sun Xiang e Zheng Zhi, e também trouxe Muriqui (atacante ex-Vasco e Atlético-MG).
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No final da temporada, ainda em 2010, o Guangzhou foi campeão da League One e voltou à Superliga Chinesa. Os anos seguintes foram de conquistas maiores e contratações cada vez mais conhecidas no futebol brasileiro.
O Guangzhou trouxe para o elenco nomes como Conca (ex-Fluminense), Lucas Barrios (ex-Grêmio e Palmeiras), Paulinho (ex-Corinthians), Elkeson (ex-Botafogo e Vitória), Alan (Ex-Fluminense), Aloísio "Boi Bandido" (ex-Grêmio e São Paulo), Talisca (hoje no Al-Nassr) e Ricardo Goulart (ex-Cruzeiro, Palmeiras, Bahia e Santos). E se destacava por atrair esses jogadores em momentos importantes de suas carreiras.
Barrios, por exemplo, tinha acabado de conquistar o Campeonato Alemão e a Copa da Alemanha com o Borussia Dortmund quando aceitou a proposta chinesa em 2012. Paulinho estava no Tottenham, sua primeira experiência internacional, e ainda foi emprestado ao Barcelona durante o contrato com o Guangzhou.
— O ambiente era muito receptivo. Quase todos os brasileiros que foram jogar no Guangzhou foram muito bem. Pode-se tirar um ou outro atleta, mas todos os outros fizeram história no clube. O time tinha essa peculiaridade de contratar jogadores brasileiros e eles cumprirem o que se esperava no futebol chinês — disse Felipão, que hoje atua como coordenador técnico do Grêmio.
O clube também investiu em treinadores de peso, em especial três campeões mundiais: o brasileiro Luiz Felipe Scolari e os italianos Marcello Lippi e Fabio Cannavaro.
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O resultado foi uma sala de troféus lotada: oito vezes campeão do Campeonato Chinês (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017 e 2019), duas da Champions League da Ásia (2013 e 2015), duas da Copa da China (2012 e 2016) e quatro da Supercopa (2012, 2016, 2017 e 2018). Aliás, Felipão se tornou o técnico mais vencedor da história do time, com sete taças conquistadas.
Em 2020, o clube anunciou uma nova jogada ambiciosa: a construção de um estádio para 100 mil pessoas em formato de flor de lótus. Com custo aproximado de 12 bilhões de yuans (cerca de R$ 8,9 bilhões à época), o projeto foi idealizado por Xu Jiayin e tinha previsão de ser inaugurado em 2022. A ideia era que a arena fosse uma referência mundial e pudesse receber a cerimônia de abertura da Copa da Ásia do ano seguinte.
Anatomia da falência
A Evergrande teve um crescimento exponencial entre 2004 e 2020, cerca de 44% de acordo com a "Financial Times" - o maior crescimento de uma empresa na China. Mas a receita de Xu Jiayin para esse sucesso foi uma série de empréstimos, com juros que em certo ponto se tornaram insustentáveis.
A empresa contraiu dívidas que somavam mais de 300 bilhões de dólares e começou a ter dificuldades para pagar credores e fornecedores. A solução foi tentar arrumar novas receitas de todas as formas para abater os passivos. As obras do estádio, por exemplo, foram interrompidas. A situação começou a se agravar a partir do final de 2021.
— A Evergrande foi um dos conglomerados mais atrevidos. Ao mesmo tempo em que fizeram muitos imóveis, contribuindo para a melhoria da situação da classe média chinesa, endividaram-se loucamente. Aí, eles caíram na malha fina do Xi Jinping (presidente da China) — explicou o economista Leonardo Burlamaqui, professor da Uerj e pesquisador do Instituto Levy de Economia, em entrevista a Info Money.
No início de 2021, o time voltou a se chamar Guangzhou FC para seguir uma regra da Associação Chinesa de Futebol, que buscava evitar referências aos investidores - a confirmação do fim do vínculo entre clube e empresa.
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Sem os aportes da Evergrande, o Guangzhou também começou a ter problemas de caixa. O clube precisou a fazer demissões em massa em diferentes frentes do negócio e começou a perder membros importantes do elenco. Ricardo Goulart, que já tinha até tirado cidadania chinesa, rescindiu contrato, assim como Paulinho. Ambos no segundo semestre do mesmo ano.
O clube viveu uma temporada negativa na classificação e caiu para a segunda divisão no fim de 2022, depois de 12 anos entre os principais times da elite.
A falência oficial da ex-patrocinadora aconteceu pouco depois, em janeiro de 2024, e foi decretada pela justiça de Hong Kong. O tribunal avaliou que a Evergrande não foi capaz de oferecer um plano de reestruturação concreto após diversos calotes.
O Guangzhou, que já estava desamparado, decaiu ainda mais na sequência. Não conseguiu cumprir os requisitos financeiros obrigatórios para se inscrever na Segunda Divisão e teve a licença negada pela Federação Chinesa de Futebol. Em janeiro do ano passado, o clube anunciou que encerraria as atividades profissionais.
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