Esportes
Com Infantino na Colômbia, Conmebol se opõe à Uefa e reforça defesa de cartola na crise da Fifa
Sul-americanos reafirmam apoio ao presidente da federação, pressionado por europeus; Finalíssima criou rusgas, e Copa de 2030 é central na discussão
| GLOBOESPORTE.COM / LEONARDO LOURENçO
Sob forte pressão, principalmente da Uefa, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, desembarcou na madrugada desta sexta na Colômbia. Aqui, na América do Sul, encontrou clima bem menos carregado.
A Conmebol se tornou uma trincheira para o suíço, alvo dos europeus e de membros da Concacaf, a confederação das Américas do Norte e Central e do Caribe, por liderar um projeto que previa a criação de uma empresa vinculada à Fifa e aberta a investidores privados – a companhia reuniria os direitos comerciais e de competições, como a Copa do Mundo.
Na quinta, o Conselho da Conmebol se reuniu e publicou comunicado em que, sem citar a Uefa, ataca os movimentos que tentam forçar o fim da era Infantino – seja por renúncia, seja por decisão de um Congresso Extraordinário da Fifa.
A nota, primeiro, celebra que o projeto do Fifa Forward Entreprise, a empresa que gerou a celeuma, tenha sido abandonado – posição unânime entre os órgãos de comando do futebol.
Depois, manifesta “preocupação com as reiteradas ações unilaterais adotadas sem recorrer ao diálogo nem aos mecanismos institucionais previstos para o tratamento desse tipo de situação'.
Por fim, reforça a necessidade de respeitar o processo eleitoral na Fifa, com pleito previso para o ano que vem e que tem, por enquanto, Infantino como único candidato declarado – o prazo para apresentação de outros termina em 18 de novembro.
Horas depois da reunião do Conselho da Conmebol, federações locais enviaram cartas de apoio diretamente a Infantino. Foi o caso das do Paraguai, Argentina, Equador e Venezuela – Uruguai e Chile replicaram o manifesto da Conmebol em seus sites.
Os colombianos recepcionaram o presidente da Fifa em Cali, com registos nas redes sociais da federação. Infantino está no país para visitar projetos e acompanhar a posse do presidente eleito da Colômbia, Abelardo de La Espriella.
A fidelidade da confederação sul-americana não é por acaso. O presidente Alejandro Domínguez tem sido aliado de primeira ordem de Infantino, a quem declarou apoio para a eleição do ano que vem antes mesmo de o atual presidente se lançar candidato.
– Estamos trabalhando firmemente pela saúde do futebol, por tudo o que se tem se transformado o futebol. Temos que ser sinceros, temos um líder para essa transformação. A Copa de 48 seleções foi exitoso, mais do que eu pessoalmente esperava. Esse presidente é Infantino. Tem que se reconhecer esse grande trabalho, entre muitos outros – declarou Domínguez na Colômbia nesta sexta.
O dirigente paraguaio tem na sua relação com Infantino um trunfo para tirar do papel seu projeto mais importante: ampliar para 64 o número de seleções na Copa do Mundo de 2030.
O Mundial de daqui quatro anos terá três partidas – as primeiras – disputadas na América do Sul para celebrar os 100 anos do torneio, disputado no Uruguai em 1930.
Por enquanto, Montevidéu, Assunção e Buenos Aires serão palco de um jogo cada, mas Domínguez quer mais. O cartola sonha com 18 confrontos no continente, que receberia três grupos da Copa.
Como comparação, Canadá e México, que organizaram o Mundial deste ano com os EUA, tiveram 13 jogos cada. Portugal, que será sede de 2030 com Espanha e Marrocos, tem dez duelos previstos para a próxima Copa.
A proposta de Domínguez foi revelada no ano passado e, desde então, encarou forte resistência – o próprio Infantino era pessoalmente contrário ao inchaço, apesar de nunca ter se posicionado publicamente. Mas num momento de crise e de busca de apoio, o plano ganha outra importância.
No fim de julho, quando o projeto de criação da Fifa Forward Enterprise já tinha se tornado o gatilho da turbulência atual, a Fifa encomendou um estudo para analisar os impactos da ampliação da Copa do Mundo.
O que deu novos argumentos para os ataques dos europeus. A Associação de Ligas Profissionais da Europa citou a proposta em nota na última quarta: “a Fifa não pode continuar tomando decisões unilateralmente disruptivas que vão contra as ligas, clubes, jogadores e torcedores cujos esforços e investimentos sustentados impulsionam o valor das competições internacionais de futebol'.
A crise na Fifa amplia o distanciamento entre a Conmebol e a Uefa, as confederações que organizaram 16 Copas até hoje – e que venceram todas as 23.
O cancelamento da Finalíssima, entre os campeões da Euro e da Copa América, iniciou a rusga.
Argentina e Espanha, que depois fariam a final da Copa do Mundo, se enfrentariam no Catar, em 27 de março, mas o jogo precisaria mudar de local por causa dos conflitos entre o Irã e os EUA, que impactaram o Oriente Médio.
A definição de uma nova sede causou atritos. A Uefa primeiro sugeriu Madri, mas os argentinos recusaram por não se tratar de um local neutro. Houve propostas por partidas de ida e volta na Argentina e na Espanha. Por fim, a sugestão foi jogar na Itália. E aí o impasse foi a data: os sul-americanos queriam o dia 31 de março, o que foi rejeitado pelos europeus.
A Finalíssima e seus contratos todos foram cancelados, então.
Nessas discussões, a CBF tem mantido uma posição de discrição. Ao contrário de alguns vizinhos, não tornou pública nenhuma carta enviada a Infantino e tem defendido nos bastidores que a Conmebol se manifeste pelo bloco.
No ano passado, durante o episódio que causou a queda de Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF, a Conmebol tirou do Brasil – e entregou à Argentina – uma das cadeiras no Conselho da Fifa – os outros representantes sul-americanos são da Colômbia, Equador e Uruguai.
Infantino tenta minimizar a pressão até o processo eleitoral da Fifa. Quando anunciou sua candidatura, em abril, reuniu apoios públicos da Conmebol, da CAF, da África, e da AFC, da Ásia. Os africanos, nesta semana, reiteraram essa posição.
Do outro lado estão a Uefa e a Concacaf, esta última de maneira menos enfática, mas comandada pelo personagem que surge como potencial rival de Infantino na eleição do ano que vem, o presidente Vitor Montagliani.
O catari Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG, também tem sido citado como possível candidato apoiado pela Uefa, mas é improvável que desafie Infantino, que mantém forte apoio no país árabe.
A escolha do próximo presidente está prevista para o 77º Congresso da Fifa, que será realizado em Rabat, no Marrocos, em 18 de março do ano que vem.
No comando da Fifa desde 2016, Infantino pode se reeleger para só mais um mandato – o próximo vai de 2027 a 2031.
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