Pai herói: Hamilton, Verstappen e Bortoleto lembram sacrifícios da família para chegar à F1

Trio de pilotos contou com apoio da família e sobretudo de seus pais para realizarem sonho de competir na elite do automobilismo

| GLOBOESPORTE.COM / RODRIGO FRANçA, ESPECIAL PARA O GE


Gabriel Bortoleto ao lado do pai, Lincoln, ainda na adolescência — Foto: Reprodução/Redes sociais
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Como um esporte amplamente globalizado, o Dia dos Pais na F1 é celebrado em datas diferentes dependendo da nacionalidade dos pilotos. Enquanto o brasileiro Gabriel Bortoleto comemora a data no segundo domingo de agosto, a maioria do grid celebra no terceiro domingo de junho, caso de países como Inglaterra, França e Países Baixos. Já Espanha e Itália, por exemplo, celebram a data no dia 19 de março, Dia de São José.

Mais um ponto em comum a todos é que, nesta longa jornada de um piloto que começa sua carreira ainda criança, no kart, até chegar na F1, o papel do pai se destaca como importante diferencial para que uma carreira nas pistas consiga formar campeões, desde as categorias de base, até chegar na principal competição do automobilismo mundial.

Um dos casos mais emblemáticos nestes 76 anos de F1 é justamente do piloto que detém o currículo mais vitorioso de todos os tempos: Lewis Hamilton. Com sete títulos mundiais e 106 vitórias, o britânico teve que superar diversas barreiras para conseguir um lugar no topo do esporte a motor – e a ajuda de seu pai, Anthony Hamilton, foi fundamental.

Questionado pelo ge.globo sobre o forte apoio que recebeu dele desde o início da sua carreira, Lewis citou as suas principais memórias da sua relação com o pai na difícil trajetória rumo aa F1:

- Para mim, acho que as melhores lembranças são de quando sentávamos juntos para assistir à F1, quando eu tinha uns cinco anos. Lembro de ficar sentado observando ele trabalhar no meu kart quando chegava do trabalho. No início, quando eu ia começar uma corrida de kart, nós fazíamos um aperto de mão. Saber que ele estava ao meu lado me dava a certeza de que eu estaria seguro ao voltar da pista. E, mais tarde, vê-lo lá embaixo no pódio quando venci minha primeira corrida na F1, saber de toda a história por trás daquilo, todo o trabalho duro, o sacrifício real e o sangue, suor e lágrimas que nossa família dedicou a isso. Acho que esse foi o momento mais marcante de todos.

Anthony Hamilton chegou a ter três empregos no Reino Unido para bancar a carreira do filho no kart, um esporte conhecido justamente pelo seu alto custo financeiro mesmo em seus primeiros passos, como relembrou Lewis.

- Ao longo da jornada, lembro-me dos trabalhos extras que ele fazia, como colocar placas de "vende-se": eu o acompanhava e ajudava a colocar essas placas quando era mais novo - disse o veterano.

Confiar no talento do filho, no entanto, foi a melhor estratégia que o pai poderia fazer – campeão britânico de kart, Lewis foi receber o prêmio em uma cerimônia promovida pela revista Autosport, onde conheceu o então chefe de equipe da McLaren, Ron Dennis.

Lewis falou com o dirigente que “um dia seria piloto de sua equipe'. “Me ligue daqui alguns anos', respondeu o famoso chefe de equipe, que liderou a McLaren em diversas conquistas, incluindo o tricampeonato de Ayrton Senna em 1988, 1990 e 1991.

O sucesso de Hamilton na base foi decisivo para que Dennis observasse de perto o jovem piloto e, três anos depois, colocasse Lewis em seu programa de talentos com a McLaren e sua parceira na época, Mercedes, financiando a carreira do britânico até a F1.

Lewis fez sua estreia em 2007 como companheiro de equipe de Fernando Alonso – e daí em diante a trajetória do britânico virou história do esporte.

Para outro campeão do grid, a trajetória foi diferente, mas o papel do pai foi igualmente importante: Max Verstappen. A diferença, claro, é que o pai do holandês, Jos Verstappen, já tinha bastante conhecimento e relacionamento no mundo do automobilismo, por ter corrido na categoria de 1994 a 2003.

Ter a autonomia financeira para iniciar no kart e conhecer as pessoas certas certamente ajudou Max, mas há muitos e muitos casos de pilotos que chegam na F1 e não conseguem uma carreira vitoriosa – caso do próprio Jos. Então, o pai tratou de trabalhar para que seu filho chegasse na categoria e estabelecesse um novo patamar de competitividade, algo que ele mesmo nunca conseguiu fazer.

Perguntando pelo ge.gobo sobre a importância de Jos em sua carreira, Max deu um longo depoimento sobre sua relação com o pai:

- Para mim, o que mais impressiona é como ele era como piloto. Naturalmente, acho que se tivesse tido um pouco mais de sorte, ele teria feito uma carreira muito melhor na Fórmula 1. Mas o mais impressionante é o conhecimento que ele tem sobre corridas, ajustes e acerto de carros e karts. O que ele me ensinou desde muito cedo — aquele tipo de conhecimento — é algo difícil de descrever. Isso certamente me tornou a pessoa que sou hoje; não se trata apenas de pilotar rápido, mas sim de entender o carro. Ele seria um chefe de equipe excelente. O entendimento técnico dele sobre o carro, as peças e como fazer as coisas andarem mais rápido... Ainda discuto muitas coisas com ele: sobre o carro de rali dele, sobre o meu carro de F1 e também sobre a minha equipe de GT3. Então, é muito impressionante ter alguém assim — meu pai — explicando tudo e transmitindo esse conhecimento. Isso é o que mais me impressiona.

Os métodos de Jos Verstappen são considerados duros pelo próximo Max, ressaltando o alto nível de exigência do pai em busca da perfeição.

Um caso popular no paddock é o dia em que o pai parou em um posto de combustível e expulsou o filho da van onde estavam a caminho do hotel, furioso após um erro do jovem piloto na final do Mundial de Kart. Mas é o próprio Max que revela a importância deste tipo de formação para que ele chegasse pronto para disputar um título na F1.

- Houve os anos que ele sacrificou desde que comecei a correr até chegar à Fórmula 1; ele basicamente pausou a carreira que queria ou poderia ter seguido fora da Fórmula 1 e se dedicou 100% — eu diria 110% — porque nunca vi alguém tão empenhado em proporcionar as melhores oportunidades ao filho. Não apenas fornecendo o melhor equipamento, mas ajustando ele mesmo esse equipamento.

Ao contrário de Hamilton e Verstappen, Bortoleto ainda está iniciando sua trajetória na F1. Mas os anos de carreira já são marcados por muitos sacrifícios, que já renderam títulos na F3, F2 e ajudaram a conquistar a tão sonhada vaga na F1, como piloto da Sauber em 2025 e agora na equipe oficial Audi.

Lincoln Oliveira, pai de Gabriel, foi quem incentivou o filho a competir, com sua paixão pela F1 desde a época de Senna. Ele construiu uma carreira de empresário no setor de telecomunicações com a principal intenção de justamente realizar o sonho do filho de chegar até a F1.

A dedicação para a empresa significou muitas vezes a ausência do pai nas corridas – e Bortoleto teve que se mudar aos 12 anos para a Itália em busca deste sonho, longe da família. Mas o brasileiro contou ao ge.globo como as conquistas de cada título ajudam a compensar estes sacrifícios.

- Minha melhor memória, quando eu era mais novo, foi a primeira vez que ele me levou à pista. Depois, infelizmente, meu pai trabalhava muito e não pôde comparecer a tantas corridas durante a minha carreira, mas naquelas mais importantes — quando eu estava disputando os títulos —, a primeira pessoa que eu ia abraçar depois da conquista era ele. Foi um momento muito especial. Esses dois anos, 2023 no título da F3 e 2024 no da F2, foram muito marcantes para mim; vê-lo enquanto eu estava ali no carro, comemorando, e poder ir direto até ele foi algo muito especial.

A próxima etapa da F1 será disputada no circuito de Zandvoort, com a disputa do primeiro treino livre no dia 21 de agosto, sexta-feira.



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