Chuvas intensas desafiam gramados do Brasileirão; estádios buscam adaptação

Sequência de episódios de chuva forte no Sul e Sudeste, regiões de 85% dos clubes da Série A, aumenta necessidade de manutenção e faz arenas estudarem mudanças em drenagem

| GLOBOESPORTE.COM / RODRIGO LOIS


Gramado do Couto Pereira para o clássico Athletico x Coritiba — Foto: Igor Barrankievicz / BkzPhoto
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Fortes e duradouras chuvas atingem o Brasil há mais de dois meses, em especial no Sul e Sudeste do país. Essas regiões concentram 85% dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro . O aguaceiro impacta a qualidade do gramado dos estádios do Brasileirão, o que tem exigido a reação de clubes e administradores.

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O que a água faz com o gramado?

Em excesso, a água pode saturar o solo, reduzir sua capacidade de drenagem, diminuir a oxigenação das raízes da planta e comprometer a estabilidade do gramado . A grama fica mais fraca. A superfície do campo se torna mais vulnerável ao pisoteio dos jogadores.

— O problema ocorre quando a chuva chega mais rápido do que o sistema consegue drenar. O solo encharcado fica mais mole e perde resistência. Isso facilita o surgimento de buracos, o desprendimento de pedaços de grama e as deformações durante o jogo — explicou Roberto Gomide, CEO da World Sports, empresa especializada na construção e manutenção de gramados esportivos.

A sequência de chuva e jogos também diminui o tempo de recuperação do gramado, o que impacta diretamente as condições para o futebol. E o campo não deve ser avaliado só pela aparência, é preciso medir fatores como umidade, resistência e uniformidade da superfície.

— Com muita chuva, a grama começa a formar alga, o campo fica solto. Todo jogo que acontece durante chuva pesada o dano é muito maior, a durabilidade ou carga de uso que o campo aguenta é muito menor. O solo saturado estraga muito mais o gramado. E sem sol, não consegue recuperar — comentou a engenheira agrônoma Maristela Kuhn, cujo escritório é especializado em campos esportivos.

Maracanã, Couto Pereira e mais casos

O escritório de Maristela Kuhn foi contratado pelo consórcio que administra o Maracanã para ajudar na recuperação do gramado do estádio. O Consórcio Fla-Flu atribuiu parte da piora do gramado às condições climáticas dos últimos meses.

Aumentou para 46% a proporção dos jogos com chuva no mesmo dia ou nas 24 horas anteriores, entre julho e agosto de 2026. Esses meses também foram mais quentes do que no ano anterior, e isso afetou a atividade fisiológica da grama. O volume de chuva para o mês de agosto aumentou 208% entre um ano e outro.

A junção do inverno mais quente com as fortes chuvas deixou a superfície do gramado menos densa e mais úmida. Sem intervalo suficiente para reduzir os danos entre jogos, a qualidade caiu. E com tanta chuva ainda em setembro, fica impossível entrar com maquinário pesado.

— Existem algumas situações das quais não temos controle. A questão da umidade do solo piorou. A densidade vegetal piorou em 2026. Tão importante quanto o volume total de chuva, é quando cai essa chuva. Com a chuva desse jeito, a gente não pode trabalhar no campo — comentou Fred Nantes, CEO do Maracanã, na semana passada.

Dos 24 estádios já utilizados neste Brasileirão, 19 deles (79,1%) ficam nas regiões Sul e Sudeste, de acordo com levantamento do Gato Mestre.

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O clássico entre Coritiba e Athletico-PR, da sexta-feira passada, pela 27ª rodada do Brasileirão, sofreu com a chuva. O gramado do estádio Couto Pereira ficou completamente encharcado, e o técnico Odair Hellmann reclamou das condições de jogo.

A chuva começou a cair forte em Curitiba cerca de quatro horas antes do clássico. O árbitro Wagner do Nascimento Magalhães conversou com os dois técnicos, Fernando Seabra e Odair Hellmann, que eram contra o início do jogo naquelas condições. Mas ele foi realizado mesmo assim, e acabou num empate em 3 a 3.

No último sábado, o Santos venceu o Cruzeiro por 2 a 1 num confronto em que as chuvas anteriores ao jogo deixaram o gramado muito úmido. Na semana anterior, Neymar havia criticado publicamente as condições do campo, que vem sendo afetado por chuvas acima da média para o mês de setembro na região da Baixada Santista. O tempo ruim não é o único fator para a baixa qualidade.

Mudança do clima e excesso de chuvas

A distribuição das chuvas durante o trimestre entre junho e agosto deste ano foi bastante irregular no Sul e Sudeste do Brasil. Os registros históricos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam aumento na frequência de eventos extremos associados ao excesso de chuva.

Isso não significa necessariamente que o volume total anual de chuva esteja aumentando, mas os dados mostram que a precipitação pode ocorrer de forma mais concentrada, em períodos mais curtos, e com acumulados elevados.

A previsão é de que o tempo instável continue nos próximos dias, com chuvas acima da média na região Centro-Sul . A cidade de São Paulo, por exemplo, já registrou 253,8 milímetros de chuva neste mês — setembro mais chuvoso da capital desde o início da série histórica, em 1943.

Segundo meteorologistas, além das frentes frias que têm avançado pelo Brasil, a atuação do El Niño, que promete ser um dos mais fortes da história, é uma das principais explicações para os temporais.

O fenômeno do El Niño promete ser forte em setembro, e a ele se somam as mudanças do clima provocadas pelo aquecimento global. Os eventos climáticos de chuva têm se tornado cada vez mais frequentes e intensos no Brasil, em especial nas regiões Sul e Sudeste, e essa é a previsão para as próximas décadas, como apontam as projeções do último Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU.

— Os episódios de chuva intensa registrados no Sul e no Sudeste do Brasil nos últimos meses estão acima da variabilidade climática normal. Isso quer dizer que eles têm se tornado mais extremos e mais frequentes. O palco em que isso tudo ocorre é um planeta mais quente. As mudanças do clima tornam os eventos mais frequentes e mais extremos. Há uma relação direta entre o aquecimento do planeta e o aumento da ocorrência de chuvas muito intensas no Brasil — explicou o climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

As soluções de curto prazo para os estádios

A chuva continuará fazendo parte do futebol brasileiro. Agora os clubes e administradores de estádios precisam investigar de que maneira irão se adaptar ao cenário de eventos climáticos extremos de precipitação cada vez mais frequentes e intensos .

Sistemas de drenagem eficientes são fundamentais para retirar o excesso de água e permitir que o gramado se recupere mais rapidamente. Uso de gramado híbrido, aplicação regular de areia adequada, controle do acúmulo de matéria orgânica, aeração do solo e uso de sensores para acompanhar as condições do campo são outras medidas apontadas por especialistas consultados pelo ge.

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Estádios como a Arena Fonte Nova e o Beira-Rio, usados na Copa do Mundo de 2014, instalaram o sistema de drenagem a vácuo, que torna o processo muito mais eficiente e mais rápido para tirar a água do campo . A Arena do Grêmio também conta com essa tecnologia.

A CBF começou neste ano o Programa de Avaliação de Infraestrutura dos Estádios, para checar as condições dos principais estádios do país. Isso inclui aspectos de resistência à chuva. A confederação contratou a consultoria Arena para fazer um estudo detalhado de todos os palcos usados na Série A. Os relatórios já ficaram prontos e serão apresentados aos clubes em outubro.

* Esta matéria faz parte do quadro "Clima em Jogo", do Redação sportv.



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