Policial
Elas lotam presídio por eles; quando são presas, homens somem da fila
Regras, tempo de convivência e perfil dos visitantes mudam no estabelecimento penal feminino
| MSNEWS/AMANDA FERREIRA E SOFIA LUPAES / CAMPO GRANDE NEWS
No presídio masculino, elas chegam cedo, enfrentam fila e lotam a porta para visitar maridos, namorados, noivos, filhos e pais. No feminino, basta olhar para a calçada para perceber que a história muda. Os homens quase somem.
Depois de acompanhar um domingo de visitas na Máxima de Campo Grande, onde mulheres dominavam a fila do lado de fora, o Lado B foi ao Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi para ver o que acontece quando são elas que estão atrás das grades. A pergunta era simples: quem continua aparecendo?
Na manhã acompanhada pela reportagem, cerca de 30 pessoas esperavam em uma única calçada. Nada parecido com o movimento visto no presídio masculino, onde familiares se espalhavam pelas proximidades e a quantidade de visitantes era suficiente até para movimentar vendedores nos arredores.
No feminino, não havia comércio, grupos espalhados pela rua ou uma grande fila tomando conta da região. Mas a diferença mais incômoda não estava no tamanho do movimento. Estava em quem aparecia para visitar.
Mães, filhos, pais e outros familiares estavam ali. Maridos e companheiros, segundo visitantes que frequentam a unidade, são raridade. Uma delas resumiu o contraste: “Aqui quem vem é filho, mãe, pai. Homem para visitar uma mulher é bem raro. Se tiver 1, 2 ou 3, é muito. No masculino é fila'.
Segundo visitantes ouvidos pela reportagem, as presas recebem familiares em 3 domingos do mês, sendo um deles destinado às crianças. Apenas uma pessoa por vez pode entrar para visitar cada detenta. Depois do último domingo de visita, é preciso aguardar o início do mês seguinte para um novo encontro.
O período de convivência também é menor, conforme os relatos. Pela manhã, é preciso chegar cedo para retirar uma senha, e a entrada ocorre entre 8h30 e 11h. Há outro período de visitação à tarde. Quem não consegue uma senha corre o risco de voltar para casa sem encontrar a familiar.
Outra diferença está nas sacolas levadas para dentro. Na Máxima, o Lado B encontrou os chamados “jumbos' com frutas, doces e outros alimentos, com limite informado de até 8 quilos. No feminino, visitantes relatam que podem levar 2 quilos de comida salgada. Doces, café, açúcar, bolos e frutas não são permitidos. Por isso, familiares deixam dinheiro para que as presas comprem outros produtos dentro da unidade.
Nos domingos destinados às crianças, conforme as visitantes, também não é permitida a entrada de alimentos para os pequenos. Caso queiram comer durante o período em que estão na unidade, é preciso comprar na cantina.
“Cadê a nossa lei brasileira?' - Entre as pessoas que aguardavam para entrar estava a secretária Gláucia Tenório de Holanda, de 48 anos, que há cinco anos visita a filha presa na unidade. Ela conta que há familiares que chegam de outras cidades e até de outros estados e passam a noite nas proximidades para tentar garantir uma das primeiras senhas.
“Tem gente que vem de fora, de outra cidade, de outro estado. Tem que passar a noite aqui em frente ao presídio para conseguir a vaga e entrar mais cedo', relata.
Gláucia sabe o peso que a distância pode ter nessa rotina. Ela deixou Costa Rica e se mudou para Campo Grande para acompanhar a filha durante o cumprimento da pena. Segundo seu relato, a mulher foi presa após tentar fazer justiça com as próprias mãos depois que a própria filha, neta de Gláucia, teria sido vítima de abuso sexual aos 2 anos. Conforme a mãe, a detenta já cumpriu 5 anos de uma pena de 8.
“Quem está pagando somos nós, familiares. Minha filha está cumprindo cinco anos, tem que cumprir oito anos, e eu estou pagando, minha neta e minha família estão pagando por isso. Cadê a nossa Justiça brasileira?', questiona.
A mudança não significou apenas trocar uma cidade pela outra. Gláucia conta que deixou a casa e o trabalho para acompanhar a filha e levar os netos até o presídio. Hoje, mora de aluguel nas Moreninhas.
“Larguei minha cidade, larguei minha casa para estar aqui acompanhando a minha filha. Hoje eu vivo de aluguel, parei de trabalhar para acompanhar minha filha e trazer os meus netos para fazer visita. Eu estou indignada porque quem está pagando somos nós, a família', desabafa.
Mesmo morando em Campo Grande, o domingo começa cedo. Gláucia calcula gastar entre 30 e 40 minutos no trajeto até o presídio. No dia em que conversou com a reportagem, acordou às 5h e, quando chegou à unidade, já havia 21 pessoas à sua frente.
“Tem gente que dorme na fila para conseguir a primeira vaga. Eu cheguei às 5 horas e já era a 21ª', conta. O meio de transporte depende do dinheiro disponível. “Às vezes eu venho de Uber, quando tenho dinheiro, mas, quando não tenho, venho de ônibus e volto de ônibus'.
Medo de se identificar - Nem todas aceitaram mostrar o rosto ou dizer o nome. Várias pessoas ouvidas pela reportagem preferiram não se identificar por medo de que a exposição pudesse trazer consequências para as familiares que estão dentro do presídio. Segundo os relatos, há receio de represálias contra as detentas, que poderiam ir de tratamento mais rígido dentro da unidade até transferências para outros presídios.
Uma delas saiu do Coophavila II para visitar a mãe, presa há dois anos. Além das restrições, ela reclama do pouco tempo que consegue passar ao lado dela depois de enfrentar a espera para entrar.
“É uma luta. Cada dia que passa, só aumentam as dificuldades. Se a gente conseguir entrar às 10h ou 11h, já está quase na hora de ir embora. É uma coisa bem rápida. Você sentou, deu um beijinho no rosto e já tem que levantar e dar tchau'.
Outra mulher, que frequenta o presídio há cinco anos e atualmente visita a mãe e uma tia, também pediu para não ser identificada. Para ela, as diferenças em relação à Máxima aparecem tanto nas regras quanto no tempo que as famílias conseguem permanecer com as presas.
Mas há uma diferença que não depende de regulamento e que se pode perceber simplesmente olhando para quem está na fila. Enquanto mulheres lotam os dias de visita no presídio masculino, maridos e companheiros são raridade diante do presídio Irmã Irma Zorzi, segundo as pessoas que a nossa equipe ouviu.
“Aqui quem vem é filho, mãe, pai. Homem para visitar uma mulher é bem raro. Se tiver 1, 2 ou 3, é muito. No masculino é fila', relata.
Para a visitante, o contraste entre as duas unidades também provoca uma sensação de tratamento desigual. Ela questiona por que o tempo de visita e outras condições relatadas pelas famílias seriam diferentes para homens e mulheres presos.
“Quem sofre aqui são os nossos. Aqui vem filho, mãe, pai. Esposo não vem, é bem raro. No masculino é fila. A gente gostaria de saber por que existe essa diferença, por que lá eles têm mais privilégios. Aqui não tem necessidade de a gente não poder ficar o dia inteiro em uma visita. Nós gostaríamos de saber por que existe essa diferença entre o feminino e o masculino', finaliza.
A ausência de visitas não se restringe à cena encontrada em frente ao presídio feminino de Campo Grande. Levantamento feito a partir de dados do Sisdepen, painel da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais), mostra que 6.327 das 23.567 mulheres presas no Brasil não têm nenhum visitante cadastrado, o equivalente a 26,8% do total. Entre os homens, o percentual é menor, de 23,3%.
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